SIRVA A DEUS E NÃO AS RIQUEZAS (Mt 6:19-24)


SIRVA A DEUS E NÃO ÀS RIQUEZAS

(Mt 6:19-24)

I) – ONDE ESTÃO OS SEUS TESOUROS (6:19)



Um mandamento negativo


“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra...”


·  Análise Gramatical

 “não acumuleis” μη Θησαυριζετε (do verbo grego θησαυριζω thesaurizo, mesmo verbo usado na parábola do rico insensato em Lc 12:21 “assim é todo aquele que entesoura [θησαυριζων] para si mesmo e não é rico para com Deus” e é o mesmo verbo usado por Paulo em I Cor 16:2 θησαυριζων traduzido na ARA como “e vá juntando” ou seja, vá “entesourando” ou vá “acumulando”).

·  O perigo no hábito de acumular riquezas

Seguramente, acumular riquezas é uma é um hábito cheio de perigos espirituais. O dinheiro pode ser uma grande benção, se ele não for um fim em si mesmo, e sim um meio para se alcançar um fim, ou seja, para impedir que a família de alguém se constitua em um fardo pesado para outros (I Tm 5:8), para socorrer aqueles que estão em necessidade (para promover a propagação do evangelho na própria pátria e no estrangeiro, entretanto, o dinheiro pode ser uma perigosa armadilha.

· O que o Senhor Jesus realmente está proibindo?

Essa ordem aqui do Senhor Jesus de não acumular tesouros sobre a terra, não é uma proibição de tentar ganhar dinheiro licitamente nem de fazer provisões legítimas, como por exemplo trabalhar e ganhar o seu salário, investir em algum negócio etc. antes é uma proibição de acumular egoisticamente riquezas sobre a terra movidos pela ganância de ficar ricos a todo custo, colocar a nossa esperança nas riquezas e fazer dos tesouros aqui na terra e acumular tesouros seja o alvo da nossa vida.

·  Podemos extrair das Escrituras três exemplos do tipo de ganância que faz uma pessoa acumular riquezas para si egoisticamente e que o nosso Senhor proíbe aqui:


ü O plano maligno de Jezabel para se apossar da vinha de Nabote que seu esposo cobiçou (I Rs 21)
ü O homem que pediu para Jesus usar sua autoridade para mudar a cultura, o costume, a própria lei para favorece-lo, tirando o direito do seu irmão na divisão da herança (Lc 12:13-15).
ü A parábola do rico insensato ((Lc 12:14-21).

·  Por que não devemos acumular egoisticamente tesouros sobre a terra?


ü Por causa da transitoriedade dos bens materiais, por causa da pouca duração dos tesouros da terra, além de serem inseguros.


“...onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões escavam e roubam”


Naquela época os bens materiais eram guardados em casa e se resumiam basicamente em roupas: roupas finas, resplandecentes, roupas de escarlate tecidas com fio de ouro e prata, portanto, roupas, naquela época eram caríssimas e eram consideradas como bens materiais ou tesouros, tapetes muito caros também, barras de ouro, de prata, pedras preciosas, objetos preciosos, as riquezas eram medidas em termos disso, e tudo isso eram guardados em casa.

O Senhor Jesus disse não acumule tesouros sobre a terra em primeiro lugar por que a traça e a ferrugem corroem

Com toda probabilidade os termos “traça” e “ferrugem” representam todos aqueles agentes e processos que levam os tesouros terrenos a diminuírem em valor e finalmente deixem completamente de servir aos seus propósitos. Assim, o pão fica mofado (Js 9:5), as vestimentas se gastam (Sl 102:26), os campos (particularmente os negligenciados) se tornam infestados de ervas daninhas (Pv 24:30), os muros e cercas caem (Pv 24:32), os tetos se deterioram, apodrecem e as casas começam a goteirar (Ec 10:18), o ouro e a prata perdem seu brilho e perecem (I Pe 1:7; 18). Acrescenta-se a destruição causada pelos cupins, furacões, tufões, tornados, terremotos, enfermidades das plantas, erosão do solo, etc. A lista é quase interminável.

Quanto ao segundo, o desfalque, os ladrões escavam e roubam, nas paredes de barro das casas em que Jesus estava pensando, o ladrão podia facilmente fazer uma abertura e roubar os tesouros guardados. A inflação, os impostos opressivos que podem equivaler a uma sofisticação, as bancarrotas, as crises do mercado de capitais, os gastos associados as longas enfermidades, estes e muitos outros males semelhantes tem o mesmo efeito. Além disso, o corpo do homem, inclusive dos mais fortes, se desgastam gradualmente (Sl 32:3 / 39:4-7 / 90:10 / 103:15-16 / Ec 12:1-8). Quando ele morre, todos os tesouros terrenos, nos quais ele depositara suas esperanças, desvanecem com ele.

Portanto, pelo fato dos tesouros terrenos serem transitórios, de pouca duração e por isso inseguros, eles não são confiáveis e por causa disso não podemos fazer do acúmulo de riquezas e de tesouros sobre a terra o alvo da nossa vida, pois, a qualquer momento podemos perder esses tesouros e todo nosso esforço será em vão.


Ao contrário de vivermos acumulando tesouros sobre a terra que são transitórios, passageiros e por isso inseguros e não são dignos de confiança nem do nosso esforço nem da nossa dedicação o Senhor Jesus diz:


“Mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde os ladrões não escavam e nem roubam”

Ao contrário da ordem anterior negativa de não acumular riquezas e tesouros sobre a terra a ordem positiva de acumular tesouros e riquezas no céu, está justamente no contraste da duração entre um e outro por exemplo os tesouros celestiais duram, são confiáveis e são completamente seguros, nós devemos acumular riquezas no céu, porque os tesouros celestiais são duráveis, estão seguros e são confiáveis. E nunca vamos perder esses tesouros, eles não estão sujeitos a perderem seus valores e nunca vão deixar de servir aos seus propósitos.



ü Por que onde estiver o nosso tesouro ali estará o nosso coração


A segunda razão que o Senhor Jesus nos dá para não acumular nos tesouros sobre a terra, mas acumularmos tesouros no céu, mostra a relação entre o nosso coração e o nosso tesouro.


Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração

E o que ele quer dizer com isso é que se o nosso tesouro estiver aqui na terra o nosso coração também vai estar aqui na terra.

O coração aqui, representa o que nós somos interiormente, nossa personalidade, nosso caráter, nossas afeições, o nosso prazer, nossa consciência, nossos alvos, a nossa dedicação, o nosso esforço, as nossas prioridades, as nossas perspectivas, etc.

É por isso que o Senhor Jesus diz que onde estiver O nosso tesouro ali estará o nosso coração.

Em outras palavras ele quer dizer que o nosso coração não pode estar em dois lugares diferentes e que se contrastam e que são excludentes, ou seja, se o nosso coração estiver em dois lugares ele estará dividido, não podemos acumular egoística mente riquezas sobre a terra e ao mesmo tempo agradar a Deus e valorizar as coisas espirituais. Então, ou o seu tesouro está no céu e se assim for o seu coração estará lá, o seu alvo, a sua dedicação e a sua prioridade estarão lá, ou o seu coração estará aqui na terra e o seu coração estará aqui na terra também por que o nosso coração segue o nosso tesouro, se for esse o caso então você vai estar se dedicando a acumular egoisticamente tesouros aqui na terra, o seu alvo e as suas prioridade vão estar relacionados aqui nessa terra.

Se o coração de uma pessoa estiver aqui na terra, essa pessoa, coloca o coração nas riquezas e em seus bens e propriedades, confia nessas coisas e se sente seguro obtendo isso e se sente infeliz não tendo, se torna uma pessoa invencível às necessidades dos outros, avarento, faz da aquisição de riquezas, propriedade e bens materiais, o alvo da sua via e sua prioridade.


Lutero disse o seguinte:


Que o deus de uma pessoa é aquilo que ela mais ama, ela carrega o carrega no coração, dorme e acorda com ele, seja as riquezas, o ego, o prazer, o poder ou a popularidade.


II – ONDE ESTÃO OS SEUS OLHOS E PRA ONDE VOCÊ ESTÁ OLHANDO (v. 22-23)?

O segundo contraste que o Senhor faz é entre o olho bom e o olho mau.


São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso;
Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!
O olho aqui representa o que nos faz perceber o valor das coisas e direciona nosso coração para onde pelos nossos olhos percebemos o valor.

Se os nossos olhos forem bons, olharemos e perceberemos o valor dos tesouros celestiais e direcionarmos nossa vida, nossos alvos, prioridades e ações para lá, se porém, os nossos olhos forem maus, perceberemos o valor das coisas dessa terra, ou seja, as riquezas, a aquisição de bens materiais, o poder, a fama, os prazeres, o ego e direcionarmos nossa vida para cá, nossa dedicação, nossos alvos e prioridades pra cá.

Ø Ilustração


Para ilustrar isso, o Senhor Jesus usa a figura da lâmpada.

Ele diz que os nossos olhos são a lâmpada do corpo, imaginemos aqui um quarto escuro sem nenhuma luz, quando entramos nele, não percebemos as coisas nem o valor delas, não conhecemos o quarto, nem o que tem no quarto, mas se acendemos uma lâmpada, então, podemos ver claramente tudo e percebemos a existência de tudo o que antes não percebíamos, a lâmpada então nós dá o conhecimento de tudo o que há no quarto.

Os nossos olhos é o instrumento que nos dá acesso ao conhecimento do mundo ao nosso redor e o valor de tudo o que nos rodeia. E os nossos olhos tem o poder incrível de nos atrair para tudo aquilo de que percebemos o valor, pois, é pelos olhos que entra em nosso coração, a percepção e análise da realidade.

O senhor Jesus continua fazendo a seguinte aplicação se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso.

Ø Análise gramatical

O adjetivo bom é a tradução da palavra grega απλους haplous que entre outras traduções possíveis pode ser traduzida por simples, único ou reto, generoso, sadio. A palavra απλους é empregada, em um sentido muito comum no grego do Novo Testamento, como generoso e generosidade. Tiago diz, com respeito a Deus, que ele dá a todos liberalmente Gr. haplous (Tiago 1:5), e o advérbio que que Tiago usa, em grego, é o mesmo que aparece aqui em Mateus nesse texto como adjetivo. Paulo exorta aos que contribuem para que con6trib5uam com liberalidade Gr. haploteti, (Romanos 12:8). Paulo, também, lembra aos cristãos de Corinto da liberalidade ou generosidade das Igrejas da Macedônia, e fala de sua própria generosa beneficência com todos os necessitados (2 Coríntios 8:2 / 9:11). Para obter um texto mais fiel ao original devemos traduzir aqui generoso em lugar de bom ou simples. Jesus elogia o olho generoso. 

Em outras palavras, o que o Senhor Jesus está dizendo é que se os nossos olhos forem retos, no sentido de olharem numa só direção, diferente dos olhos que olham em duas direções como no caso de pessoas que são zarolhas, mas pessoas que tem os olhos sadios e olham na mesma direção e não em direções opostas e na direção certa, focado para o alvo certo, para onde devem realmente olhar, ou seja, para os tesouros celestiais, a sua vida será direcionada para onde seus olhos focarem.

Ø Qual é o contraste que o Senhor Jesus quer fazer aqui?

O contraste aqui, portanto, é entre os olhos que focam num único objetivo e os olhos focam em duas direções diferentes, um olhar centrado e um olhar divido e que como resultado vai dividir o coração, a mente, os alvos, a prioridade e a dedicação.

Ø Para onde o olhar sadio ou reto olha?


Os olhos bons olham para Deus, e estão focados em Deus e nas riquezas dos tesouros celestiais, mas o olhar mau ou pecaminoso (Gr. Poneros), olha para os tesouros terrenos, e faz da aquisição e acúmulo de riquezas, bens e propriedades o alvo da sua vida, suas prioridades.

Por oposição, prestemos atenção ao nome do defeito que Jesus condena. Nossas versões dizem mau ou maligno. E este é, certamente, o significado mais comum da palavra grega que aparece neste lugar no texto original. Contudo, tanto no Novo Testamento como na Septuaginta, este vocábulo também significa normalmente miserável ou avaro ou mesquinho. Deuteronômio nos fala do dever de emprestar ao irmão que necessita. Mas esta disposição se complica com a lei de que cada sete anos deviam considerar-se todas as dívidas perdoadas. Era muito provável que se estivesse perto o "sétimo ano", o avaro se negasse a emprestar, por temor a que seu devedor se acolhesse ao cancelamento de dívidas com que podia beneficiar-se ao chegar o momento, e deste modo jamais lhe devolvesse o que tinha recebido. Por isso a lei estabelece: "Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao SENHOR, e haja em ti pecado" (Dt 15:9).  As palavras sublinhadas são exatamente as mesmas que aparecem no ensino de Jesus. É evidente que aqui olhos maus significa com mesquinhez, de modo avaro, com má vontade. Voltamos a encontrar a expressão em Provérbios 23:6, onde a V.M. diz literalmente: "Não coma o pão daquele que tem olho mau." Quer dizer "Não seja hóspede daquele que grunhe por cada bocado que você come."  Assim também em Provérbios 28:22, onde lemos: "O homem que se apressa em busca da riqueza tem olho maligno" (V.M.), e significa: "O avaro, que sempre desconfia de outros, busca apropriar-se de tudo o que pode." Para chegar ao significado exato das palavras de Jesus em vez de "olho mau" deveríamos traduzir olho avarento. De modo que Jesus afirma: "Não há nada como a generosidade para nos permitir ver a vida e as pessoas de maneira correta: e não há nada como a avareza para fazer com que nossa visão das coisas e das pessoas seja incorreta." 


III – QUEM É O SEU SENHOR (v. 24)?

Ninguém pode servir a dois senhores; por que ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Ø Análise gramatical:


O verbo servir (Gr. Doulenein), significa ser escravo ou servir como escravo.

A palavra riquezas é a tradução da palavra Aramaica Mamon, a palavra Mamon é uma palavra Aramaica de derivação e significado incerto, mas que tem sido traduzido por riquezas ou dinheiro e que alguns estudiosos tem identificado com um deus pagão, ou seja, o deus dinheiro. alguns comentaristas como William Barclay inclusive o Strong dizem que a palavra Aramaica Mamon provém de uma raiz que significa confiar ou confiança. William Barclay diz que a princípio queria dizer aquele dinheiro que confiamos a alguém para tê-lo seguro. Era a riqueza que se confiava aos cuidados de alguém. Mas com o passar do tempo chegou a significar não aquilo em que se confia, mas aquilo em que alguém põe sua confiança. Finalmente se escreveu com M maiúscula e chegou a ser considerado uma espécie de divindade: Mamom. A história desta palavra mostra de maneira vívida como as posses materiais podem usurpar um lugar na vida que nunca lhes pertenceu. Originalmente as riquezas eram algo que se confiava a outros para que as cuidassem; no final chegaram a considerar-se como aquilo no qual o homem põe sua confiança. Por certo que não há descrição mais adequada do deus a quem servimos que dizer que é aquilo em que pomos nossa confiança. Quando pomos nossa confiança no poder das coisas materiais, estas deixaram que transformar-se em nosso sustento para passar a ser o nosso deus.

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